Mostrar mensagens com a etiqueta galeria entrevista. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta galeria entrevista. Mostrar todas as mensagens

17/07/2012

galeria entrevista Rita Correia

Terça-feira é dia de entrevista na galeria portuguesa.
Saiba um pouco mais sobre a Rita Correia.



A Rita nasceu uma desenhadora e cedo percebeu que era no meio dos desenhos que se sentia como peixe na água... e também nas cantorias... mas isso daria outro filme.
Licenciada em Artes Plásticas-Pintura pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa e com cinco anos de experiência numa empresa multimédia, a vertente da ilustração surgiu
naturalmente.
Desde 1999 tem ilustrado para vários livros, artigos editoriais e material multimédia em suportes físicos e virtuais.
Atualmente vive em Cascais, tem 2 filhos e desde que se tornou mãe, que a vontade de traballhar para a infância aumentou exponencialmente e a partir do momento em que
começou a ser trabalhadora independente com atelier na sua própria casa, que se tem deparado com o crescente desafio de organizar o melhor possível as 24h de cada dia.
Em 2011, quase ao mesmo tempo do nascimento do seu segundo filho, surge o projeto que talvez venha a ser o maior e mais importante na sua vida profissional. O primeiro livro,
escrito e ilustrado por si. E como se não bastasse a novidade da escrita, decide também editá-lo por conta própria, numa arriscada e sempre imprevisível edição de autor.
Um Livro para Ti foi o título escolhido para um livro dedicado às crianças e inspirado no conceito do bookcrossing, que pretende deixar a semente da partilha no coração de
quem o lê... mas que, segundo os testemunhos de quem já o leu, quase ninguém o consegue libertar, o que também foi previsto pela Rita e por isso nos deixa alternativas na contra-capa.
Um livro, que vai para além do conceito, e está também carregado de surpresas e jogos para serem trabalhados entre pais e filhos. Aqui fica o exemplo de uma dessas
brincadeiras:



Sendo uma edição de autor, este livro especial é vendido diretamente pela autora no blogue dedicado ao mesmo, com todas as informações  atualizadas, e que todos podem espreitar aqui: umlivroparati.blogspot.com

Se quiserem conhecer mais trabalhos e ilustrações da Rita acedam a estes links que estão por ordem de atualizações mais frequentes:


"Hoje fala-se muito em “crise”, eu penso mais numa “crise de valores”. Valores que reparei, foram sendo esquecidos ao longo destes últimos 20 anos, pelo facilitismo na aquisição de tudo e de muitas coisas... demasiadas coisas!
Consigo ver hoje muitas crianças, perdidas no meio de autênticas avalanches de brinquedos nos seus quartos. Uma geração a quem tem sido dado pouco espaço para a imaginação, para a invenção ou para a partilha, onde o verbo “ter” adquire muita, demasiada importância a meu ver."


Para quem não sabe, o que é o bookcrossing?
R: O bookcrossing é, tal como a palavra em inglês traduz, "passagem de livros". Surgiu pela primeira vez em 2001, e é um conceito que sugere a passagem e a partilha dos livros que já lemos e, em vez de os guardar em casa, libertá-los em sítios públicos onde possam ser encontrados, lidos e voltarem a ser partilhados da mesma forma, como se o mundo se pudesse transformar numa biblioteca gigante e à disposição de todos.


Como mãe, tem conseguido combater o verbo "ter"?
R: Felizmente sim. Enquanto criança o verbo "Ter" nunca foi sequer uma questão, pois só tínhamos o que era possível ter, e esta mensagem, os meus pais souberam passar extraordinariamente bem. Hoje, como mãe, e com a oferta quase avassaladora em relação a tudo, vejo alguma dificuldade, mas os principais valores e princípios que me foram tão bem ensinados, têm definitivamente marcado a diferença na educação que dou aos meus filhos.

Optou por uma edição de autor. Contactou muitas editoras antes de avançar?
R: Dada a natureza do meu projeto, o meu primeiro contacto foi com uma grande amiga, que estando a trabalhar no mundo editorial há vários anos, e em quem confio totalmente, me colocou na mesa todas as possibilidades para um livro como o meu, inclusivamente a hipótese de uma edição de autor. E confesso que foi a possibilidade que mais me agradou.
No entanto, estabeleci alguns contactos, onde uma editora cordialmente me respondeu que, sendo um livro com o objetivo de ser partilhado não conseguiam prever se poderia gerar o lucro esperado. Uma outra editora gostou muito do projeto e mostrou-se muito interessada em publicá-lo, mas por estarem a atravessar um período complicado não tinham previsões de quando poderiam avançar.
Talvez o caminho até à edição de autor estivesse naturalmente destinado, pois tudo em mim sempre se inclinou nessa direção.

Quais foram as maiores dificuldades que sentiu ao publicar este livro de forma autónoma?
R: Sinceramente, foi a decisão final de ter de financiá-lo com o dinheiro da minha poupança familiar, e pelo facto de ele ter surgido exatamente numa altura em que era mamã pela segunda vez, e tinha ao meu encargo um bebé com cerca de 5 meses. De resto, com a ajuda moral da família e o apoio de alguns amigos fora de série (aos quais fiz questão de agradecer no fim do livro), senti toda a força que precisava para avançar com este projeto. Definitivamente a parte mais complicada era mesmo a financeira, pois as ilustrações e o design do livro, seria o mais simples de concretizar de todo o processo. E a minha mãe esteve sempre por perto para que o recém-chegado neto não ficasse privado de nada pela nova e louca aventura da mamã.


E como tem corrido este projeto?
R: Desde Maio, mês em que este livro viu a luz do dia pela primeira vez (muitos já me dizem ser o meu terceiro filho), que o feedback tem sido extraordinário. E o mais interessante foi saber que algumas pessoas o acham mais valioso, precisamente por não ter qualquer chancela editorial. Este livro é realmente mais que um livro, é um projeto que não se esgota apenas na leitura. O conceito sobre partilha, todos os pormenores que incluí no livro, nomeadamente os que se referem a Portugal, e os pequenos jogos espalhados por todas as páginas, que as crianças adoram, permitem-me explorar várias abordagens nas apresentações e também perceber que numa pequena hora é-me impossível conseguir mostrar todos os minuciosos pormenores que tanto gosto me deram explorar, idealizar e claro... ilustrar.

Já tinha feito ilustrações para livros infantis mas neste livro decidiu avançar também como autora do texto. É uma experiência a repetir?
R: A verdade é que este livro surgiu, quase por acaso! Nunca tinha tido grandes intenções de escrever um livro, e na realidade nunca me achei com grande jeito para inventar histórias para livros de miúdos. Mas esta ideia em particular, surgiu-me como um relâmpago perto do final do ano passado, em que tive de correr para o meu caderno para escrever todas as ideias que se atropelavam na minha cabeça. E foi algo que pressenti que tinha de avançar, fosse de que maneira fosse.
Neste momento não sei se será uma experiência a repetir, porque este livro é muito específico. De qualquer forma, como já referi em cima, tem tantos pormenores que têm tanto a ver comigo, que é possível que abra muitas portas para outras ideias semelhantes, quem sabe. Mas repetir uma edição de autor, confesso ser um pouco assustador dado todo o investimento e esforço que é exigido. Estes tipo de livros não têm a distribuição típica, e temos de ser nós a fazer tudo o que é necessário para o divulgar. É muito entusiasmante, sem dúvida, mas não é tarefa fácil.



Onde podemos ouvir a Rita a cantar?
R: Neste momento quem mais me ouve é o gato, mas também podem ouvir-me sempre que me pedirem para cantar. Desde Tom Jobim a Gershwin, ou até mesmo Pearl Jam, Joss Stone e Alanis Morissette... sem esquecer a minha querida Sara Tavares, entre muito mais repertório são apenas alguns exemplos que me fazem puxar pela voz. Mas hoje, o mais fácil será ouvirem as músicas do “Urso da Casa Azul” quando estou a entreter o meu miúdo de (agora) 1 ano para o fazer comer a sopa.
A realidade é que fui vocalista de uma banda de covers pop-rock uns anos antes de engravidar pela primeira vez, e por razões "técnicas" a banda fez uma pausa... que tem durado até hoje. Mas cantar faz tão parte de mim que sinto que precisava de uma outra vida para fazer desta grande paixão algo mais sério. Seja como for, o meu grande amigo e companheiro que por acaso até é o meu marido, diz que o encantei com desenhos, música e bolos... Nada mau para quem não tinha jeitinho nenhum para namoricos! (muitos risos)

Organiza os seus dias ou trabalha por instinto?
R: Cada vez sou obrigada a organizar-me mais e melhor. Não sou, nem me posso dar ao luxo de ser artista que trabalha só quando está inspirada. Sendo mãe, trabalhadora independente, dona de casa e ainda gestora das finanças caseiras, todos os dias aprendo o quanto a organização é essencial para conseguir fazer tudo o que é preciso. Costumo fazer muitas listas de "to dos" de véspera, que vou riscando à medida que vou terminando cada tarefa. Com o tempo a minha experiente mãe diz que tudo se torna mais automático e que as listas deixam de ser necessárias, mas até agora, vão-me dando bastante jeito. Lá em casa, o único que trabalha por instinto é o gato que come, dorme e recebe mimos todos os dias. Vidas boas!


Tem projetos para um futuro próximo?
R: Num futuro próximo, quero continuar a trabalhar no que mais gosto, e se surgirem projetos de repente parecidos com este “Um Livro para Ti” claro que farei de tudo para os concretizar. Os nossos sonhos não devem ser apenas sonhados, devem ser perseguidos e se acreditarmos profundamente que eles podem tornar o mundo melhor... então aí, devemos ser incansáveis.

Para além das suas atividades profissionais, o que mais gosta de fazer?
R: Cozinhar... e fazer os meus próprios presentes de Natal. Gosto muito de estar na cozinha e ter todos os ingredientes à minha disposição e experimentar novas formas de fazer os pratos mais típicos. Mas definitivamente, as sobremesas e principalmente a parte da decoração são a minha delícia. E só tenho pena de muitas vezes não conseguir ter mais tempo para me perder entre o meu famoso Bacalhau com Broa ou as minhas bolachinhas. Todos os amigos e familiares já conhecem bem estas bolachinhas nos Natais... e também elas estão lá no meu livro num pratinho e bem escondidas. Também tenho saudades de viajar para fora de Portugal, viagens que já não fazemos desde que a nossa primeira filha nasceu há 5 anos.


E, no dia-a-dia, o que menos gosta de fazer?
R: De arrumar a cozinha... depois de a deixar do avesso!
E compras!! Fico perdida com tanta oferta! E como sou preocupada com questões ecológicas e produtos que não tenham componentes artificiais e depois ainda faço um esforço para comprar o que é nosso... aliado com a constante preocupação de também não poder despender de um orçamento, digamos, “à vontade”... para mim, fazer compras é um desafio cansativo e se pudesse delegava esta tarefa, sem pestanejar.

Sugira alguém português que, para si, seja inspirador.
R: Posso sugerir a minha mãe... e o meu pai?
Posso falar de todas as pessoas que trabalham como voluntárias em associações ou instituições, e principalmente daqueles que cuidam das crianças?
E de todos os que acolhem animais abandonados, maltratados e têm corações de tamanho infinito?
Posso sugerir a jornalista Mafalda Ribeiro?
Posso falar de pessoas como José Pedro Cobra nos Hospitais?
Posso referir o Sérgio Godinho e a sua música?...
Quantas linhas ainda tenho?


... um LIVRO onde encontrarás
um gato malandro e um cão rafeiro,
muitas pombas e um dinossauro,
abraços, presentes e migalhas de pão
meninos e meninas como TU,
... vestidos de renda, aviões e dragões,
encontrarás PORTUGAL e Pessoa,
descobrirás TESOUROS escondidos
e uma MENSAGEM muito importante
sobre... PARTILHA!

03/07/2012

galeria entrevista Teresa e Helena Jané

Terça-feira é dia de entrevista na galeria portuguesa.
Saiba um pouco mais sobre a Teresa e a Helena Jané.


A Teresa e a Helena Jané são irmãs com um ano de diferença. Criam e produzem peças contemporâneas com mensagem. Peças “que contam histórias pessoais ou universais, tristes ou alegres, com horror ao efeito fácil, ao déjá vu, ao brilho vão”.
A Teresa tem o Curso Técnico-profissional de Artes Gráficas e Comunicação da Escola António Arroio, e licenciou-se em Design Visual pelo IADE em 1996. Trabalhou como designer em agências de publicidade.
A Helena licenciou-se em Organização e Gestão de Empresas pelo ISCTE em 1995, e tem o Curso de Formação de Formadores de Formadores da Fundação Oliveira Martins. Trabalhou na área da Formação, vertente comportamental.
Em 2002 decidiram arriscar tudo neste projeto: THJané (Handmade Portugal).
Trabalham há cerca de dez anos na conceção e produção manual de peças no âmbito da cerâmica contemporânea, essencialmente jóias e objetos de autor.
Apostam em peças únicas e assinadas, e na elevada qualidade da sua manufatura.

Originalidade, inovação e qualidade é o que as desafia.



Só têm um ano de diferença. Sempre se deram bem?
R: Não, nem sempre. Lembra-se do vídeo da música dos New Order, “True Faith”? Aquele que começa com dois maluquinhos à estalada? Pois bem, passou-se mais ou menos assim, por volta dos 5 ou 6 anos de idade.
Deixámo-nos disso assim que pudemos, até porque morríamos de vergonha perante os nossos irmãos, cinco anos mais velhos. Quanta maturidade e nós naquilo...
Entretanto, vamo-nos mantendo “entre o sol e a sombra”. A Teresa, quase sempre, mais solarenga.

Em 2002 decidiram apostar num projeto próprio. Qual foi a principal motivação?
R: Reduzir a insegurança quanto ao nosso futuro profissional, “antecipar riscos e perigos”.
Nessa altura, pairava sobre todos a já carregada nuvem da crise.
Tornou-se essencial encurtar caminho e acelerar, evitar que a ambição e o tempo nos escapassem.
Condições mínimas reunidas, ala que se fazia tarde. Para onde? Para o mercado nacional. Haverá júri mais exigente na apreciação do trabalho de artistas portugueses?
Em Janeiro de 2002, apresentámos aqueles que viriam a ser os primeiros objetos THJané – uma vasta coleção de puxadores de cerâmica, assente em formas cónicas e motivos orgânicos, projetada ao longo dos últimos 4 meses do ano anterior, com a particularidade (de que muito nos orgulhamos) da rosca «esculpida» na própria cerâmica.



E quais foram as maiores dificuldades?
R: Encontrar «as» parcerias para representação e comercialização dos produtos.
É certo que entrámos no mercado com uma facilidade surpreendente. Até pela nossa inaptidão para angariar contactos em bares e outras festas que, desde logo, inviabilizou o recurso à velha fórmula.
Mas não bastou. Foi fundamental garantir o respeito mútuo por compromissos, investir no conhecimento e clarificação de missões.

Cresceram rodeadas por fotografia, livros e objetos originais. A arte tem estado sempre presente na vossa vida, desde o piano à cerâmica. O que vos deu bagagem, certamente. São muito exigentes com o vosso trabalho?
R: Muito.
Independentemente de referências, talentos ou capacidades, por um lado, há que manter a História presente, por outro, não menosprezar a habilidade dos nossos contemporâneos.
É que não podemos ser «autistas». Na certeza de que haverá sempre alguém que o fará melhor que nós, preferimos acreditar em identidades próprias que primam pela diferença.
Na última feira do livro, em Lisboa, a propósito do seu caderno “Fui para Sul”, perguntei a Agualusa “para quando o próximo livro, acompanhado por ilustrações do autor?”.
Respondeu-me “Há quem faça muito melhor!”. É bem verdade... mas não da mesma forma.
Voltando à sua questão, a exigência tornou-se, para nós, um fator fundamental, que podemos revelar  na construção de conceitos, no detalhe ou no acabamento das peças.

Organizam os dias ou trabalham por instinto?
R: Já lá vai o tempo em que era possível planear a atividade a 4 meses, depender, em exclusivo, de informações e encomendas das lojas.
Atualmente, organizamo-nos ao dia e trabalhamos, cada vez mais, por instinto.
A forte oscilação do mercado obriga-nos a um esforço acrescido em matéria de reprogramação de estratégias. Pior ainda. A Europa tornou-se uma pequena aldeia, em que a galinha do vizinho já não é melhor que a nossa! E agora? [retomamos este assunto numa próxima questão]

E trabalham juntas ou cada uma para seu lado?
R: Meio meio. 
Podemos passar o dia cada uma para seu lado. Mas chega o tempo em que voltamos à discussão, à resolução de problemas e à negociação de consensos. Em seguida, passa-se o testemunho e volta-se ao trabalho individual.



Costumam usar as vossas peças?
R: Sempre que possível.
No caso das jóias, até começou com umas pulseiras que resolvi fazer para mim, sem intenção de as enquadrar no projeto. Alguns meses mais tarde, em 2004, a Dupla Rectângulos viria a ser testada na loja Poeira, em Lisboa, entre puxadores e amostras de decoração de interiores.  
Por hábito, quando usamos as nossas peças, costumamos misturá-las com outros acessórios, mesmo não sendo made in THJané. Aliás, foi o que tentámos sugerir quando apresentámos a gargantilha UING com uma medalha da Nª Sª do Carrapito.

Existe UMA peça especial?
R: O Braille.
Esta peça que mantivemos em estudo durante um ano, foi, originalmente, pensada para outro material, a prata. E consistia apenas na chapa.
O orçamento para a sua execução chegaria demasiado tarde. Voltámos a antecipar-nos e, enquanto exasperávamos pelo dito orçamento, fomos trabalhando uma nova solução. Foi assim que o Braille chegou às lojas poucos dias antes do Dia dos Namorados, no ano de 2006.
É, sem dúvida, a peça mais democrática que alguma vez idealizámos. Acessível no preço, conquistou a generalidade do público e, até hoje, mantém-se à venda no mercado.
Também é a mais controversa. Arte ou crafts? O que quiserem.
Foi adquirido por Robert Duffy, por uma estudante portuguesa de História D'Arte, por responsáveis do MoMA e por todos os outros a quem, desde já, agradecemos a preferência.


Têm projetos para um futuro próximo?
R: Sim.
Hoje, como ontem, esforçamo-nos por levar a tempo inteiro esta nossa atividade. Até aqui, tem sido possível fazê-lo.
Em 2010 valeu-nos retornar com a nossa bijuteria ao mercado (atualmente, é possível encontrar a coleção origens no roteiro de lojas entre a Baixa e o Castelo de São Jorge).
Quanto a novos trabalhos, destacamos a coleção de jóias wearable art, para meados de Outubro. Podemos adiantar que se trata de uma edição limitada, com novas, digo, velhas mensagens, assente em esculturas assinadas pela Teresa. À semelhança da coleção mundus, recorreremos a outras técnicas e materiais para além da cerâmica.



Para além de se dedicarem a este projeto, que outras coisas gostam de fazer?
R: Esta vai por tópicos, sem arrumação:
apanhar plantas no lixo dos outros e trazê-las ao jardim da casa;
IR ao cinema;
passear a pé pela grande Lisboa, se possível, em dias de semana;
sessões de slides e fotografias;
praia
(...)

E, no dia-a-dia, o que menos gostam de fazer?
R: Nada tem de original, mas não há meio de gostarmos do trabalho doméstico. Aspirar, passar a ferro, cozinhar ou fazer supermercado; camas de lavado, casa de banho, limpar o atelier e sei lá mais o quê..... Safa!

Sugiram alguém português que, para ambas, seja inspirador.
R: O Maestro José Atalaya, pela Música e pela divulgação dos músicos. Mais, não esqueçamos o que faz pelo público em geral. É absolutamente incrível.
Lembro-me que durante as sessões de “Música em Diálogo” no São Luiz, a que costumávamos assistir com os nossos pais e irmãos, inexplicavelmente, este Grande senhor conseguia manter-nos presas à cadeira.
Décadas mais tarde, longe de ficar preso à cadeira (chegou mesmo a deitar-se de costas, perninhas no ar), o nosso sobrinho Simão assistiu pela primeira vez a uma destas sessões no Atlântida Cine, em Carcavelos. No final, ficámos com a ideia de que talvez fosse cedo de mais ou que, para estreia, não tivessemos escolhido o programa mais adequado à sua idade (6 anos).
Reza a história que no dia seguinte, a caminho da escola, sem mais nem ontem, se virou e disse “Gostei mais do Carlos Seixas, mãe” (pobre Scarlatti).
E aí vai mais um. Ainda hoje tentamos perceber como é que Atalaya o faz.

26/06/2012

galeria entrevista Rita Correia

Terça-feira é dia de entrevista na galeria portuguesa.
Saiba um pouco mais sobre a Rita Correia.


A Rita vive em Santarém. É Licenciada em Antropologia e tem 4 filhos.
Em 2005 começou a dedicar-se ao patchwork. Uma paixão que vem de criança, das "mantas de trapos" da sua trisavó.
É uma autodidata, apesar das noções de costura que teve quando era pequena, o resto veio por tentativa e erro, alguma teimosia e muita persistência. Gosta de criar e tem uma necessidade compulsiva de conjugar cores e padrões geométricos.
Nestes sete anos já fez centenas de peças, mantas de vários tamanhos e almofadas que encontraram caminho em várias casas espalhadas pelo país e pela europa. Aqui pode encontrar alguns dos artigos disponíveis no momento ou fazer uma encomenda de qualquer tamanho e tipo de quilt.
A Rita também organiza workshops, em resposta a muitos pedidos que foi recebendo e no próximo mês de julho o seu trabalho vai estar em exposição no café/galeria "Saudade" em Sintra. Um evento a não perder.

ritacor.com
about.me/rita.correia
ritacor.tumblr.com
flickr.com/photos/ritacor



A Rita é licenciada em Antrolopogia, chegou a exercer nessa área?
R: Não. Nunca trabalhei formalmente como antropóloga.
No entanto, com o passar dos tempos, tenho-me apercebido que a antropologia tem um papel central na minha vida, na maneira como encaro o mundo e desempenho o meu papel nele.
Sou um "animal social", gosto de observar e conhecer pessoas e de perceber o mundo à minha volta.

Para os leigos, o que é patchwork e o que é quilting?
R: De uma maneira simples e abreviada:
Patchwork é a técnica de juntar coisas umas às outras de forma a criar algo novo. É um termo normalmente associado aos tecidos, mas "qualquer conjunto formado de elementos heterogéneos ou díspares" (in Priberam) pode ser um patchwork.
A tradução mais aproximada para a língua portuguesa é a palavra "trapologia", mas no entanto limita o uso semântico da palavra apenas aos têxteis.
Quilting é um termo inglês que quer dizer "acolchoado".
É uma técnica associada ao patchwork clássico, que designa a técnica de pespontar uma peça de patchwork, seja para lhe dar mais resistência, seja por mero efeito decorativo.


A paixão vem desde criança mas só se iniciou nesta atividade depois de ser mãe. Porquê?
R: Desde pequena que me lembro de "brincar com trapos".
A minha bisavó era uma hábil modista/costureira e eu passava as férias de verão com ela. Além de correr atrás dos gatos e subir às árvores (sim, era um bocado maria-rapaz) passava largas horas no seu atelier de costura a brincar com os restos de tecidos.
Nessa altura era demasiado impaciente e irrequieta para estar sentada a costurar ou a bordar, preferia ir brincar para o quintal ou ir à pesca com o meu bisavô. Mas como passava a maior parte do tempo com a minha bisavó, e ela estava sempre a trabalhar, fui aprendendo nessa altura tudo aquilo que hoje sei. Uma das coisas que mais gostava de fazer era apanhar bocadinhos de tecido e guardá-los em saquinhos. Depois fazia mantas para as bonecas e colagens onde juntava os pedaços que mais gostava.
O patchwork não era novidade: tínhamos várias peças de patchwork feitas pela minha trisavó, entre mantas, almofadas e sacos. Tinha um fascínio especial por essas peças, para as quais gostava de ficar a olhar e tentar perceber como eram feitas.
Cresci rodeada de costureiras e máquinas de costura. Além do atelier da minha bisavó, que tinha aprendizas, o meu avô materno trabalhava na (extinta) Singer Portugal numa altura em que "cada lar português tinha uma máquina de costura".
Até hoje, a única máquina de costura que comprei é uma vulgar máquina portátil, adquirida para facilitar as minhas deslocações nos workshops que dou. Trabalho apenas com máquinas antigas (a mais antiga com quase 80 anos e a mais recente com 30) que herdei da minha bisavó. Recebi de presente a minha primeira máquina de costura, que ainda hoje uso, quando tinha 6 anos.
Talvez por toda esta proximidade com o mundo da costura e a omnipresença que ele tinha na nossa família, nunca lhe dei especial importância. Costurar era uma prática era normal, fazia parte dos dias.
Quando era pequena era a minha bisavó que fazia toda a roupa que eu vestia, e na minha adolescência passei eu a fazer, com a preciosa ajuda dela, algumas das coisas que usava.
Os meus filhos mais velhos (hoje com 16 anos) ainda tiveram todo um enxoval feito por ela. Seria o último que faria.
Quando engravidei do meu filho do meio, agora com 9 anos, ela já não costurava. Foi nessa altura, associado ao click da maternidade e do "síndrome do ninho", que fui recuperar tudo o que tinha aprendido e fiz as minhas primeiras mantas de patchwork.
Posteriormente, tive uma menina depois de 3 rapazes, e a vontade de fazer vestidos e lençóis de folhos tomou conta de mim :)
O facto de ter ficado em casa durante 2 anos a tomar conta dos filhos pequenos a tempo inteiro, foi o momento decisivo que me fez voltar às linhas e agulhas e começar a fazer coisas. Sou hiperativa e não consigo estar parada.
O patchwork impôs-se de imediato, em detrimento da costura "pura e dura", por ser uma forma de fazer coisas úteis e bonitas de se ver. Aliado à possibilidade de usar muitos dos tecidos que sempre fui acumulando ao longo dos tempos.
O apoio incondicional que a minha bisavó me deu nessa altura, encorajando-me e dando dicas técnicas, confesso que foi fundamental. Nessa altura, senti o "peso" de todo um legado familiar que quis preservar.
Na altura era apenas para consumo interno. Depois comecei a fazer coisas para as amigas que íam tendo filhos e me pediam.
Posteriormente, o vício do patchwork instalou-se definitivamente a percebi que das duas uma: ou começava a por as minhas peças à disposição de outros, ou tinha de parar.
A pouco e pouco a coisa foi crescendo, eu fui aprendendo cada vez mais e o patchwork, os tecidos e as cores instalaram-se definitivamente como parte integrante da minha vida.

Qual é o processo normal para a criação de uma peça? Começa pela escolha dos tecidos ou pela forma?
R: Depende de muitos fatores. O meu processo criativo é muito diverso.
Digamos que a minha "inspiração" vem de tudo, literalmente tudo, à minha volta. Pode ser uma imagem que vejo, pode ser uma música, pode ser uma história, pode ser uma circunstância muito própria da minha vida pessoal.
Tanto posso ficar com vontade de trabalhar/explorar uma forma específica de patchwork, como ficar fixada numa determinada cor ou tecido e começar tudo a partir daí.
Mas a escolha dos tecidos é fulcral e determinante em todo o meu trabalho.
As ideias são o embrião e os tecidos o ponto de partida.
Às vezes desenho as peças que idealizo, mas outras vezes começo a cortar e a coser sem nenhum plano específico.
Muitas mantas vão ganhando vida própria à medida que as vou fazendo, e acabam até por ser bem diferentes do que inicialmente tinha pensado.


Como é que começou a divulgar o seu trabalho?
R: Como toda a gente na era da internet: através do meu blogue.

Qualquer pessoa pode frequentar um workshop, mesmo que nunca tenha pegado numa agulha?
R: Depende. Há workshops para iniciados, mesmo que nunca tenham pegado numa agulha, e outros para quem já tem conhecimentos básicos de costura.

Como é que surgiu esta exposição que vai acontecer em Sintra?
R: Conheci a Mary, proprietária do Saudade, através da internet, há alguns anos atrás.
Tal como muitas outras pessoas, acompanhei através da internet, o nascimento do projeto Saudade, tal como ela tem vindo a acompanhar o meu trabalho, sendo ela própria uma apaixonada pelo mundo do patchwork.
No início deste ano, a Mary propôs-me fazer uma exposição lá, à semelhança de outros projetos artísticos e artesanais que tem divulgado, e eu aceitei de imediato.
Expor o meu trabalho fora dos circuitos normais onde me encontro sempre foi uma vontade da minha parte. Espero que esta seja a primeira de muitas vezes.


Chegou a fazer coleções de roupa para criança com o nome Dressing Fairytales. Este projeto acabou?
R: O projeto Dressing Fairytales nasceu da minha vontade de fazer roupa para crianças, porque a fazia para os meus filhos mais pequenos, e da minha obsessão por tecidos com histórias infantis, que tenho vindo a colecionar ao longo do tempo.
O projeto não acabou, digamos que está em hibernação.
O que se passa é que fazer roupa é um processo muito mais complexo e consumidor de tempo do que o patchwork. E os meus dias, embora muitas vezes não pareça, têm apenas 24 horas ;)
No ano passado a minha vida pessoal e profissional teve várias mudança e o Dressing Fairytales foi umas coisas que tive de deixar de lado, em nome de outras prioridades.
Mas vai voltar!

Também se dedica à temática da gravidez e parto. É uma das doulas certificadas da Associação Doulas de Portugal. O que é exatamente uma doula?
R: "Uma doula é geralmente uma mulher com experiência de maternidade, que está ao lado da mãe durante o seu parto, ajudando-a a sentir-se segura de modo a que ela consiga mais facilmente dar à luz.
A doula é nos dias de hoje uma profissional da humanização do parto, que vê o parto como um evento normal e pleno de significado na vida das mulheres, e o compreende como um processo fisiológico, que não pode ser desligado das dimensões física, psicológica, sexual, afectiva e espiritual do ser feminino." (definição do site).
Não exerço profissionalmente o papel de doula há cerca de 2 anos, precisamente pelos constrangimentos de tempo a que tenho de me obrigar para conciliar todas as facetas da minha vida, mas sou e sempre serei uma ativista acérrima dos direitos sexuais e reprodutivos. E nesse campo, trabalho todos os dias.



Organiza os seus dias ou trabalha por instinto?
R: Organizo os meus dias, de outra forma era impossível conciliar todas as coisas distintas a que me dedico.
Trabalho fora de casa 2 dias por semana. O meu emprego "formal" passou a part-time há 4 anos atrás, quando o meu filho do meio entrou para a escola primária e senti necessidade de estar mais disponível para o acompanhar.
Dos outros 3 dias da semana, um é dedicado à costura "pura e dura", outro a atualizar blogue, fotografias e trabalho burocrático, e outro ao Cineclube de Santarém, projeto a que me dedico de alma e coração desde há 3 anos, onde tenho o privilégio de desempenhar, entre outras, uma profissão em vias de extinção - projecionista.
Os fins de semana são dedicados a tudo um pouco: família, amigos, filmes, costura, trabalho doméstico, dolce far niente... a única coisa que muda é a ausência de horários a que os dias de semana obrigam.
Mas funciono muito por impulso, quando tenho uma ideia não descanso enquanto não a concretizo e aproveito todos os minutos disponíveis para o fazer.

fotografia de Rui Miguel Félix

Tem projetos para um futuro próximo?
R: A minha vida é todo um projeto apaixonante que vivo a tempo inteiro :)

Para além de quilting & patchwork, o que mais gosta de fazer?
R: Sou viciada em cinema e fotografia. Não consigo passar uma semana sem ver um filme e ando sempre com a máquina fotográfica comigo.
Sou uma leitora compulsiva, daquelas que não consegue adormecer sem ler umas linhas. Sou dependente de música: no computador, no ipod, no velho gira-discos ou ao vivo e a cores.
Toda a gente cá em casa toca um instrumento musical e o meu luxo, infelizmente cada vez mais incomportável,  são os concertos.
Gosto, como toda a gente, de passear.
Gosto de fazer puzzles e palavras cruzadas, gosto de escrever, gosto de praia, gosto de cozinhar, gosto de estar com os amigos, gosto de rir, gosto de dançar, gosto de abraçar aqueles de quem gosto.



E, no dia-a-dia, o que menos gosta de fazer?
R: Do som do despertador pela manhã. Sou daquelas pessoas que adia sempre um bocadinho mais o momento de deixar dos lençóis.

Sugira alguém português que, para si, seja inspirador.
R: Ana Hatherly. A sua obra pluridisciplinar abarca de forma sublime tudo aquilo que mais gosto: poesia, artes plásticas e cinema.

12/06/2012

galeria entrevista Filipa Cruz

A galeria portuguesa está de volta e com uma nova imagem.
Hoje é dia de entrevista. Saiba um pouco mais sobre a Filipa Cruz.


A Filipa é a responsável pela nova cara da galeria portuguesa. Tem 26 anos e é do Porto. Acredita ter antepassados diretamente ligados à história da cidade, nomeadamente ao vinho do Porto. Estudou Design na Universidade de Aveiro e fez uma dissertação de mestrado sobre o comércio tradicional da cidade do Porto, o potencial da memória e o valor dos produtos nacionais e da identidade portuguesa.
Sufragista é o nome que adotou profissionalmente. É designer de comunicação e tem trabalhado pontualmente como freelancer em pequenos projetos. O seu objetivo é trabalhar em identidade corporativa, design editorial e tipografia, as suas maiores paixões no design gráfico.
Fez um estágio de seis meses num pequeno estúdio em Estocolmo e regressou a Portugal no final de Maio. Com esta aventura descobriu que só estando fora de Portugal se olha realmente cá para dentro, e que os artefactos portugueses têm um lugar lá fora, num imenso potencial a explorar.
Gosta de escrever números e datas por extenso e tem uma obsessão por tons antigos de cor-de-rosa.

asufragista.blogspot.pt
flickr.com/photos/sufragista
cargocollective.com/sufragista



A Sufragista, porquê?
R: A sufragista começou há muito tempo. No início adotei-o como nickname para usar na internet, ainda antes do tempo dos blogs. Em 2005 criei o meu blog, chamado "bazar da sufragista". A partir daí comecei a usá-lo (em português) para todas as redes da web em vez do meu nome. Só mais tarde é que me apercebi do potencial daquela palavra, e da forma como estava tão ligada a mim e de como continuava a fazer sentido.
No meu primeiro post do blog escrevi que sou: a última das sufragistas. Porque ser sufragista é acreditar numa emancipação social da mulher (e também dos homens), afastando-nos da cultura e repensando os nossos vícios e hábitos culturais. Sou sufragista porque as mulheres que há mais de um século eram assim chamadas levaram a cabo a mais fabulosa luta de sempre, na época mais incrível e estranha da história humana. Acho que ainda subscrevo isto. Escrevo e penso muito sobre os papéis de género e as questões sociais interessam-me; o papel da mulher na sociedade e a forma como as mulheres se vêem é um tema que me fascina. E acho que procuro sempre respostas para isso. A ironia é que normalmente encontro-as nas obras de autores masculinos. Por isso é que falo na emancipação da mulher e dos homens, uma emancipação dos preconceitos culturais.
Sufragista, em português, pareceu-me sempre muito sui generis. Primeiro, porque não existe realmente um movimento feminista em Portugal, e nunca existiu realmente. Segundo, porque é uma descontextualização histórica: a história das sufragistas passou-se essencialmente em Inglaterra, e tem um lugar forte nas culturas anglo-saxónicas. Uma sufragista portuguesa do século XXI que quer fazer design. É isso que me interessa, uma descontextualização que provoque uma alteração, algo deslocado.
Ao mesmo tempo também há uma certa afinidade pessoal com uma época histórica, com o fin de siécle.

Estes seis meses em Estocolmo o que é que lhe trouxeram?
R: Primeiro, trouxeram-me muitas saudades. Uma imensidão de saudades. Depois, muita aprendizagem pessoal e profissional. Mas acho que foi essencialmente uma experiência forte, marcante e algo que fiz para aprender coisas inesperadas, numa cultura que ainda conhecia pouco. Foi muito mais enriquecedor do que imaginei porque conheci muitas pessoas de países e culturas diferentes e isso é incomparável. Aprende-se uma nova escala de imaginar o mundo, e apequenam-se outra coisas que se pensavam mais importantes.
Mas as saudades surpreenderam-me. Descobri-me muito mais portuguesa do que pensava que era...


Teve saudades do ruído português...
R: Sim. Tive saudades de muitas coisas, mas o inverno, que foi a maior parte do tempo que ali passei, é incrivelmente silencioso. Na primavera muda bastante, as pessoas transformam-se muito quando vem o sol e bom tempo. Essa passagem é um coisa fantástica de se ver, a importância do sol e da luz. Fez-me perceber aquilo que muitos dizem do nosso país... essa posição geográfica mágica, com a luz única da Lusitânia. Não admira que sejamos culturalmente tão crentes no milagroso, no espiritual. Uma luz destas é coisa divina, não é coisa racional.

Diz que os designers não são artistas. São o quê, então?
R: Alguns designers podem também ser artistas. Eu sei que não sou artista. Um designer responde a um programa, a necessidades, a condicionamentos, a contextos. E deve desenvolver projectos tendo em conta essas condições, adaptando as soluções. Por isso é que vejo o designer como um intermediário, entre vários intervenientes, alguém que compreende um processo e procura as melhores soluções para esse processo funcionar. Por isso é que fazer design bom é tão difícil, são necessárias condições, tempo de planeamento e alguma abertura por parte desses intervenientes.
Em Portugal, é particularmente difícil porque as pessoas pensam que os designers são artistas, e também pensam que qualquer pessoa pode dar a sua opinião num processo criativo, o que lança uma grande confusão sobre aquilo que é ou não do domínio do designer. Em suma, perdemo-nos profissionalmente nos processos, o que, teoricamente, não é mau. O resultado é que pode ser um desastre. Isto porque o designer vive precisamente nessa ambiguidade entre a autoria do processo artístico, e a diluição dessa autoria pelo processo projetual, de respostas a uma problema.


A Filipa tem colecionado exemplos de lettering público em Portugal. Como é que começou a interessar-se por este assunto?
R: Penso que desde sempre fui muito atenta à paisagem gráfica. Mais que a paisagem natural, a paisagem urbana fascina-me, essencialmente numa escala pequena, de cidades pequenas e antigas.
Aveiro foi a cidade que me inspirou a começar uma pesquisa fotográfica, dos letreiros do comércio e das placas toponímicas da cidade.
Mais tarde fiz o mesmo exercício no Porto, ao calcorrear a Baixa a fotografar os letreiros mais especiais. Foi também uma urgência: muitos destes letterings vão eventualmente desaparecer em breve, ou vão ser alterados. No meu último ano do secundário fiz um projeto semelhante com as casas antigas do Porto. E muitas delas desapareceram, outras foram recuperadas. Sempre estive interessada em registar aspetos da cidade relacionados com a sua memória.
Entretanto, deixou de ser um interesse só pela tipografia e começou a ser um interesse pelo lettering. Estudei esses conceitos e quase que comecei a fazer uma tese sobre esse tema, mas entretanto mudei o objetivo do trabalho para a questão da memória e do comércio. Pareceu-me muito mais pertinente como tema, mas também mais urgente do ponto de vista da cidade, que era isso que eu queria estudar — a forma como as cidades lidam com o seu potencial histórico.


Todos os anos, em dezembro, faz uma compilação de músicas, num álbum com capa e tudo. É para o ano ficar arrumadinho?
R: Pois, acho que tem mais que ver com memória do que com organização (não sou muito boa nisso). Comecei estes álbuns anuais inspirada em outras pessoas que faziam o mesmo. Penso que quando era miúda gostava de fazer umas mixed tapes (cassetes com músicas variadas), e que este projeto é uma forma de fazer algo semelhante. Foi também uma forma de criar um projecto anual em que me pudesse dedicar a desenhar um album, ou seja, foi um pretexto para fazer um projeto de design gráfico, e, ao mesmo tempo, resumir a música que ouvi nesse ano. Agora funciona como um diário musical, o que me transporta para aquilo que ouvi em determinados momentos do ano.


No seu blogue, A Sufragista, há muitos excertos de textos do Miguel Esteves Cardoso...
R: Tal como introduzi no post que escrevi sobre os textos dele: Em tempos depressivos como os que se aproximam, procurei respostas no Miguel Esteves Cardoso. Gosto tanto de ouvir aquilo que ele disse que transcrevi quase metade da entrevista. Voilá.
São transcrições de uma entrevista passada na RTP, feita por um jornalista ao Miguel Esteves Cardoso, em que ele divaga sobre as questões da identidade portuguesa. Descobri que a visão dele me fascina. Porque é ao mesmo tempo uma visão portuguesa mas também de fora da cultura portuguesa, pela identidade dele ser também em parte da cultura inglesa. Mas o optimismo daquela visão é maravilhoso. E faz muito sentido para mim.

Gosta muito de fotografia. Anda sempre com a máquina fotográfica?
R: Não. Gostava muito de ser como as pessoas que o fazem, mas sou muito despassarada e pouco organizada. Até porque para fotografar tenho de sair de casa com esse objetivo. Muitas vezes saio só com a máquina e  dedico-me só a passear, observar e registar. Sou assim uma turista interna. Comecei isso em Aveiro, enquanto estudava e continuei a fazê-lo a partir daí em todos os sítios onde vivo.
A fotografia, da forma como a uso, é essencialmente uma ferramenta visual e de memória, uma forma excelente de registo. Uso-a para me lembrar dos locais e os registar numa memória futura. Por isso, tenho tendência a precisar do processo analógico, uma forma de fotografar que implica um certo tempo de espera, um impasse.

Organiza os seus dias ou trabalha por instinto?
R: Trabalho essencialmente por instinto, se bem que tento organizar o meu tempo, especialmente quando tenho projetos ou colaborações com outras pessoas.

Tem projetos para um futuro próximo?
R: Tenho ideias para um futuro próximo, mas não projetos. Acho que esses surgem naturalmente do desenrolar das coisas e das ideias. Para já penso em colaborar com amigos em projetos pequenos e tentar encontrar clientes que me queiram a fazer design gráfico como gosto de o fazer.



Para além do design, o que mais gosta de fazer?
R: Crochet e tricot! Ah, ah... Também gosto de pegar em pincéis e desenhar palavras. E gosto de escrever.

E, no dia-a-dia, o que menos gosta de fazer?
R: Ultimamente tem sido fazer malas. Detesto ter de fazer malas.

Sugira alguém português que, para si, seja inspirador.
R: Podia sugerir tantos nomes..., há tantos portugueses inspiradores de formas tão diversas. Vou-me ficar pelos antigos, do século passado: o Almada Negreiros, para mim, será sempre o artista total do século XX, o artista multifacetado, multitalentoso e sempre crítico e controverso. Não conheço personalidade artística e intelectual que me fascine mais.

15/05/2012

30 entrevistas na galeria portuguesa

E fizemos 30 entrevistas na galeria portuguesa, a pessoas inspiradas e inspiradoras que têm algo a acrescentar ao panorama nacional.
A todos, muito obrigada pela disponibilidade e simpatia com que participaram neste projeto. E venham mais 30!

Margarida Teixeira


Joana Cabral, produtora de televisão que faz muitas outras coisas fabulosas.
Paulo Galindro, arquiteto e ilustrador que aqui provou que também escreve muito bem.
Inês Nogueira, designer que transforma qualquer tecido numa coisa extraordinária.
Isabel Minhós Martins, habitante do Planeta Tangerina, autora de livros geniais.
Mónica Pinto, entre Pratos & Travessas delicia-nos com receitas e fotografias.
Rita Pinheiro e as suas bonecas irresistíveis, Matilde Beldroega.
Ana Salomé, que afinal não tem monstros debaixo da cama!
Mami Pereira, a sensacional Arqueologista.
Beatriz Afonso, que quando for grande quer ser stylist.
Joana Nogueira e a sua The Punpis Family.
Ana Ventura, tem "jardins na cabeça" e muita criatividade.
Sara Bernardo, fotógrafa com projetos comoventes.
Rita Cordeiro, que criou as incríveis wooler e cooler.
José Cabral, o famoso Alfaiate Lisboeta.
Inês Vicente, de Lisboa e dos Lissabon.
Evelina Oliveira, ilustradora, pintora, professora...e aluna.
Lara Luís, de olhos abertos.
Alice Bernardo com a noussnouss e o projeto saber fazer.
Liliana Alves e as suas jóias versáteis.
Sílvia Silva, uma rapariga como nós!
Valter Varandas, fotógrafo que também gosta de escrever.
Rita Rodrigues e a Made in Paper.
Diana Coelho e as suas peças coloridas.
Rita Balixa, ilustradora e apaixonada por colagens.
Pedro Gomes, designer e cidadão do Mundo.
Bernardo Carvalho, editor e ilustrador. Até agora, o mais rápido a responder!
Mariana, a Miserável (ou não...)
Joana Ribeiro, criadora de jóias com uma costela de planeadora de eventos.
Joana Rosa Bragança, ilustradora entre borbotos e barbelas (e gatos!).
Rosa Pomar e os seus tecidos e projetos envolventes.

01/05/2012

galeria entrevista Rosa Pomar

Terça-feira é dia de entrevista na galeria portuguesa.
Saiba um pouco mais sobre a Rosa Pomar.


Foi sobre a Rosa que escrevi o primeiro post da galeria portuguesa. Não foi por acaso. É verdadeiramente inspirada e inspiradora. Leiam a entrevista.

Nasceu em 1975, tem duas filhas e mora em Lisboa.
Não terminou a tese de mestrado em História Medieval que estava a preparar enquanto estudava Ilustração no Ar.Co mas não desistiu de voltar a ela um dia.
Trabalha muitas horas por dia mas não sabe o que responder quando lhe perguntam que profissão tem. "Mãe blogger que faz bonecos e outras coisas de pano" seria o mais acertado.
Foi bus-lady de um colégio chique e bolseira de investigação científica, deu aulas e fez produção de exposições.
Viveu dois anos no campo e três meses em Nova Iorque, foi aqui que nasceu o seu blogue, em 2001, chamado @ny que mais tarde passou a chamar-se A Ervilha Cor de Rosa.
Desde que se lembra que gosta de coser, tricotar, bordar e tecer. Os bonecos nasceram em 2004, depois da maternidade. Partilhou no seu blogue o primeiro boneco, e o segundo, e o terceiro, e recebeu emails e comentários de incentivo que mudaram a sua vida. Não há dois bonecos iguais. Cada um é decorado à mão com veludo de lã e galões bordados antigos que coleciona há muitos anos, e todos têm uma etiqueta de pano única e numerada.
Depois dos bonecos apareceram as mantas, sacos, pires de pano e muitas outras coisas, como por exemplo os slings (porta-bebés) que nasceram com a sua filha mais nova. Fez um e depois outro e em pouco tempo estava a receber encomendas. Todos os slings são reversíveis e distinguem-se pelos tecidos que usa – sobretudo tecidos tipicamente portugueses, tecidos africanos e alguns outros, escolhidos a dedo, de que gosta particularmente.
Seguiu-se a retrosaria on-line e depois a loja própria. A Retrosaria está na Rua do Loreto, 61 - 2.º Dto, em Lisboa, de Terça a Sábado das 10 às 19h.
A Rosa continua a investigar a cultura popular e publica posts sobre a história têxtil. Nos Açores nasceu a Lã em tempo real, um projeto a ganhar forma no cruzamento do seu trabalho com o do realizador Tiago Pereira.

aervilhacorderosa.com
retrosaria.rosapomar.com
rosapomar.com


Começou o seu blogue em 2001. Com que propósito é que o criou?
R: Em 2001 o universo dos blogs era totalmente diferente do que é hoje. Tinha uma página pessoal associada ao meu primeiro site, o Páginas de História, e cada vez que queria atualizar essa página tinha de re-editar o código html. Quando descobri essa coisa nova chamada blog quis logo experimentar. Isso coincidiu com uma estadia de alguns meses em Nova Iorque, pelo que o blog começou por funcionar como um diário de viagem.


Em que altura é que percebeu que tinha uma legião de fãs a segui-la?
R. Bem, legião não sei se diria... A Ervilha Cor de Rosa começou a ter bastante visibilidade a partir de 2004, quando comecei a vender os primeiros bonecos de pano. Isso coincidiu com o primeiro boom da blogosfera em Portugal.

A verdade é que inspirou muita gente a descobrir os seus talentos e a trabalhar de casa. Sente-se orgulhosa?
R: É sempre bom encontrar posts alheios que dizem comecei o meu blog depois de ter visto a Ervilha Cor de Rosa. Sobretudo quando quem escreve não só assume essa inspiração como desenvolveu um trabalho com identidade própria. Sei que há uma espécie de geração de bloggers que de certa forma nasceram da Ervilha Cor de Rosa, da mesma forma que eu tive a Mariana Newlands ou a Claire Robertson como referências iniciais. É como se o blog tivesse sido em grande medida a porta de entrada do fenómeno dos crafts em Portugal, fenómeno esse que depois ganhou autonomia, claro, e mil e uma ramificações, da multiplicação de mercados do chamado artesanato urbano ao saudável reflorescer das pequenas retrosarias um pouco por todo o país.


Os seus bonecos, chamam-se só bonecos. Nunca lhes deu um nome. Porquê?
R: Sempre achei que era condicioná-los demasiado à partida. Os bonecos que me atraem mais, sejam tradicionais ou industriais, são sempre os mais simples, sem expressões ou feições muito marcadas, aos quais é possível atribuir durante a brincadeira diferentes personalidades ou estados de espírito.

A Rosa é provavelmente uma das pessoas mais plagiadas da blogosfera. isso incomoda-a?
R: Claro. Com o tempo fui percebendo que a maioria das pessoas que o faziam tinham um perfil semelhante: eram pessoas com muito pouca ou nenhuma experiência, pouquíssimas referências e, naturalmente, nenhum sentido de ética. Em geral as situações evoluíam de uma de duas maneiras possíveis: ou desistiam porque fazer bem dá efectivamente trabalho e porque os plágios são facilmente reconhecíveis (a net é este pau de dois bicos, em que, por um lado, as pessoas estão muito vulneráveis a serem copiadas mas, por outro, quem copia é facilmente denunciado), ou o trabalho acabava por um salto qualitativo: da cópia ou inspiração abusiva várias pessoas evoluíram positivamente para um trabalho com personalidade própria. Hoje em dia aborreço-me sobretudo com as pessoas que constroem percursos decalcados de ideias e conceitos que vão buscar à Ervilha Cor de Rosa, mas a minha atitude continua a ser a mesma: antes ser copiado do que copiar. Por outro lado, há situações em que a cópia se torna tendência e que isso tem um lado curioso ou mesmo positivo, como aconteceu por exemplo com as séries de fotografias de mosaico hidráulico (e também azulejo) que fui publicando ao longo dos anos no blog. Estas imagens, que foram sendo destacadas em vários sites nacionais e estrangeiros, funcionaram como uma espécie de meme e foi-se tornando cada vez mais comum encontrar fotografias tiradas da mesma forma, com o mesmo ângulo e pormenores, em diversos blogs. O lado mais positivo disto prende-se com o feedback que tenho recebido de várias pessoas que nunca tinham reparado ou valorizado este tipo de pavimento e passaram a olhar para ele de outra maneira, preservando ou restaurando o das suas casas em vez de o substituírem.


Mostra muitas vezes coisas antigas que tem guardadas. É daquelas pessoas que guarda tudo?
R: Já fui muito mais. Às vezes fotografar as coisas permite-me libertar-me delas e ficar só com as imagens. Mas é verdade que tenho uma quantidade de tecidos antigos acumulada maior do que é verosímil que venha a conseguir coser nos próximos tempos.


Continua a querer voltar à História Medieval ou já faz parte do passado?
R: Não creio que volte a fazer investigação concretamente em História Medieval, mas as ferramentas e conhecimento que trouxe dos anos que dediquei à investigação em História sempre me foram úteis e ainda mais nos últimos anos, em que me tenho dedicado cada vez mais ao levantamento e estudo das práticas tradicionais em torno dos têxteis portugueses.


Estudou ilustração. Gostava de fazer ilustrações de livros infantis?
R: Já há muitos anos que não me ocorre fazê-lo, mas houve uma altura em que pensava nisso. Julgo que nunca seria uma ilustradora mesmo mesmo boa, por isso prefiro apreciar o trabalho dos que o são.


O seu trabalho é apreciado e elogiado em todo o lado. E já conseguiu conquistar muita coisa. Ainda vibra com pequenas vitórias profissionais?
R: Claro! Quando deixar de vibrar é sinal de que tenho de mudar de ramo. Nunca trabalhei senão no que gosto e faço questão de que continue sempre a ser assim.

Vem de uma família de "mãos de fada". As suas filhas também lhe seguem as pisadas?
R: A minha filha mais velha adora coser à máquina. Aprendeu com sete anos, num dia de férias em que a "abandonei" com a máquina e um cesto de retalhos depois de uns minutos em que lhe expliquei basicamente o que é que tinha de fazer para garantir que não se magoava. A mais nova passou o ano a fazer tricot com os dedos... As crianças absorvem sempre com facilidade aquilo que as rodeia, como eu aprendi com as pessoas à minha volta. Se esse interesse se mantém ou desvanece é que nunca se pode prever.



A Rosa faz mil e uma coisas. Em casa descontrai ou está sempre a trabalhar?
R: Muitas vezes descontraio a trabalhar. O que é cansativo são as obrigações, burocracias e tarefas repetitivas, não o trabalho criativo ou a concretização de um projeto que se quer levar a bom porto.

Organiza os seus dias ou trabalha por instinto?
R: O trabalho da Retrosaria exige organização, mas em geral trabalho avançando com os projetos que tenho em curso consoante a minha motivação, sem pensar se é domingo ou terça-feira.



Tem projetos para um futuro próximo?
R: O mais premente neste momento é a conclusão de um livro sobre história e técnica das malhas em Portugal, que estou a escrever.

Para além da sua atividade profissional, o que mais gosta de fazer?
R: A maior parte das coisas enquadram-se mais ou menos diretamente no que considero que é o meu trabalho. Vou daqui a uns dias para Miranda do Douro acompanhar um workshop organizado por uma associação local dedicado ao ciclo da lã. Vão ser dias de trabalho intenso a fazer o que mais gosto, não se pode pedir mais.

E, no dia-a-dia, o que menos gosta de fazer?
R. Resolver problemas burocráticos e gastar tempo com tarefas domésticas.

Sugira alguém português que, para si, seja inspirador.
R: Tiago Pereira.