22/11/2011

galeria entrevista Paulo Galindro

Terça-feira é dia de entrevista na galeria portuguesa.
Saiba um pouco mais sobre o Paulo Galindro.


O Paulo é licenciado em arquitetura e pai de dois filhos.
Sonhava ser astronauta mas acabou por fazer voar as crianças com as suas ilustrações.
Ama os livros, a música, café, chá e dióspiros com canela. É também apaixonado pelo surf.
Criou, com a sua mulher, Natalina Cóias, a marca pintarriscos® - orientada para pessoas que dão valor à criatividade, originalidade e exclusividade.
O pintarriscos voa por mundos tão diversos como a cenografia teatral, a ilusão do Barroco e a ilustração infantil, através da reinterpretação de espaços, objetos e conceitos em que o objetivo é, acima de tudo, a criação de ambientes únicos.
No blogue O Voo do Pintarriscos, o Paulo e a Natalina mostram tudo aquilo que os move... inspira... arrepia... emociona... lava os olhos... e leva às lágrimas...

www.pintarriscos.com
pintarriscos.blogspot.com
www.flickr.com/photos/pintarriscos/sets

Quando é que a arquitetura ficou pelo caminho? Ou nunca ficou?
R: O curso de arquitetura não foi um tiro em falso. Muito pelo contrário. Hoje sei que se não fosse arquiteto, dificilmente seria ilustrador. A arquitetura é uma das áreas mais ecléticas da atividade humana, pois harmoniza na perfeição a arte e a técnica, em todas as suas mais variadas expressões. É por isso que é comum um arquiteto dedicar-se a outras áreas criativas. O processo criativo, os códigos e as regras básicas que estão subjacentes à música, à paginação de um livro ou ao design de uma chávena de café têm muitos pontos em comum com o projecto de edifício. Foi também no meu curso que que tive o privilégio de me cruzar com o arquiteto Miguel Mira, professor de desenho do 1º ano, um dos professores mais influentes na minha vida. Nas suas aulas, ele derrubou por completo anos de condicionamento de um ensino escolar que infelizmente, muitas das vezes, limita em muito a criatividade e expressão dos alunos. Ainda hoje, quando vou às escolas falar do meu trabalho, apercebo-me que essa é ainda uma realidade gritante e triste, independentemente da faixa etária. Com toda a certeza ele já não se lembrará de mim, mas foi com este professor que forjei as asas que ainda hoje estão a crescer e a ganhar penas.
Por tudo isto, a arquitetura nunca ficou pelo caminho, apesar de, nos últimos anos, muitas vezes o ter desejado. Não porque não goste de arquitetura - e de facto gosto mesmo muito, de outra forma nem sequer conseguiria chegar ao fim do curso, que por natureza já é muito difícil  - mas porque aquilo que me move, aquilo que me faz vibrar é mesmo a ilustração. Quando estou a pintar, deslizo ligeiro através do tempo. Entro como que num estado alterado de consciência onde os minutos se dilatam e comprimem, a fome e a sede não existem. Por oposição, quando estou a fazer um qualquer projecto de arquitetura normalmente dá-me uma fome danada lá pela hora de almoço. E isto é dizer muito.
Atualmente, o meu único elo de ligação à arquitetura deriva do facto de ainda exercer funções na Divisão de Planeamento e Ordenamento do Território da Câmara Municipal do Barreiro. Muitas pessoas mostram-se surpreendidas com este facto. Suponho que seja por pensarem que não se consegue desenvolver um trabalho criativo tão intenso como o da ilustração, quando já passámos 8 horas a trabalhar numa outra actividade paralela e tão institucional como esta, com a qual pouco ou nada tem em comum. Não sendo impossível - e eu sou a prova disso - na verdade não posso deixar de lhes dar razão. A vida dupla que levo é um caminho por vezes muito tortuoso, que me leva a uma cansaço extremo, a uma saúde por vezes periclitante e a muitas noites mal dormidas, onde a cafeína é a minha melhor amiga. Se adicionarmos a esta equação louca o facto de ser pai de um João e de um Miguel – com 10 e 5 anos respectivamente – e as 4 horas diárias de viagem em transportes públicos - o comboio e barco são, na verdadeira aceção da palavra, o meu segundo atelier, e muitas das ideias surgem embaladas pelas vibrações da linha férrea e um ou outra onda mais afoita - será muito fácil constatar que, mais tarde ou mais cedo terei de abrir as asas e lançar-me de corpo e alma e tudo o resto ao que mais amo fazer.
Por enquanto não o posso fazer, cortesia dos tempos absolutamente surreais em que vivemos. No nosso país a cultura sempre foi delegada para segundo plano, e agora, com a crise, muito mais ainda. E isto pode ser muito assustador quando a nossa atividade depende unicamente de uma das muitas vertentes da cultura.

Qual foi a obra que serviu de rampa para a sua profissão?
R: Para responder a esta pergunta terei de recuar até aos meus 6 anos de idade, aos primeiros momentos em que manifestei o desejo de um dia desenhar livros para crianças, inventar casas malucas para as pessoas morarem e voar pelas estrelas. Na verdade, nem me posso queixar muito. Sou ilustrador, arquiteto e quanto às viagens espaciais, quem me conhece sabe que passo muito tempo lá em cima, algures entre as nuvens e a constelação de Vega.
O meu pai sempre trabalhou em artes gráficas, como operador de gigantescas máquinas de imprimir, e por isso mesmo sempre tive acesso aos bastidores dos livros. Atualmente as empresas de artes gráficas parecem autênticos laboratórios de tão imaculados que são. A eletrónica reina e uma máquina consegue fazer de uma vez só o que antes várias faziam em vários dias, e com um mínimo de desperdício de papel e de emissão de decibéis. Mas há 3 décadas e meia tudo era diferente. Na oficina do meu pai as máquinas pareciam inspiradas na revolução industrial ou num filme pós-apocalíptico em estética steampunk. O barulho destes monstros mecânicos era ensurdecedor e todos os acertos, afinações e ajustes às imagens era feito empiricamente pelo meu pai, com base em anos e anos de experiência. 1 pingo de vermelho, 3 pingos de amarelo, 5 pingos de azul - ou serão 4? - a máquina infernal rugia e lá saíam milhares de folhas impressas na perfeição. Tudo era mais visceral, primitivo, sujo, perigoso e intenso. Não havia JPEG's nem TIFF's, nem aplicações informáticas para nos guiar no complexo mundo da impressão. A montagem dos planos de impressão era feita numa mesa de luz, colando pedaços de película com fita-cola transparente e infinita paciência. Muitas vezes ainda se usavam os tipos de chumbo e a prensa, que hoje em dia apenas se encontram em antiquários ou em pequenas oficinas de auto-edição. Mas contrastando com este mundo de cheiros, sons e imagens brutas, o resultado final era um trabalho perfeito, pleno de delicadeza e de sensibilidade, o que aos meus olhos de menino nada mais era o do que pura magia. E o meu pai, no meio de todo este caos mecânico, era o feiticeiro-mor.
Posso dizer que a um nível subliminar, a minha carreira de ilustrador começou aqui.
O meu pai estendia no chão algumas folhas de papel por cortar, num formato em bruto muito, muito grande, para cima das quais eu saltava após me ter descalçado. E ali ficava horas e horas a pintar, rodeado pelos meus desenhos, a um ponto tal que o único espaço em branco que restava era os 0,25 m2 ocupados pelos meus pés. No final, muitas vezes eu próprio me confundia com os meus desenhos. Agora, quando penso nisso, percebo um pouco melhor os meus sonhos: do alto meu glorioso metro de altura, uma folha com aquelas dimensões era um universo em branco, pronto a ser criado de raiz, vivenciado e explorado por mim. Daí o sonho de ser astronauta.
Por outro lado, esta enorme superfície branca formava um espaço ortogonal, arquitetónico, que eu apreendia e aprendia com os meus sentidos e ocupava com os meus desenhos, ao ponto de imaginar que se tornava tridimensional, protegido por 4 paredes igualmente brancas, igualmente de papel. Ora aqui está a génese da minha vontade de ser arquitecto.
Há sensivelmente 10 anos, eu e a Natalina decidimos ilustrar a parede do quarto do nosso filho, de quem estávamos grávidos, e que nasceria daí a 15 dias. Desta experiência espontânea surgiu a ideia, em parceria com um outro casal amigo, de criarmos a marca João Pé-de-feijão (os primórdios do que é hoje a Pintarriscos, mas disso falarei mais à frente). Foi durante este período que conheceríamos duas personagens únicas que nos inspirariam muito, e que tatuariam em mim, para sempre, a certeza de que mais tarde ou mais cedo seria ilustrador... Falo da Julieta Franco, criadora da marca "Era uma vez um sonho", e a Mafalda Milhões, co-criadora da editora "Bichinho de conto" e da livraria "Histórias com bicho", que é um verdadeiro paraíso para quem gosta de livros infantis. E foi no âmbito desta editora que o meu sonho ganharia corpo pela primeira vez, ao co-escrever com a Mafalda o livro "Chiu!", e ao conceber na íntegra as respectivas ilustrações. E devo dizer que neste livro, qualquer semelhança com a minha família não é pura coincidência.
O universo é um relógio, não é? E nós, dentro desta caixa de Pandora, apenas vislumbramos duas ou três peças desta complexa engrenagem.

Como, quando e porquê O Pintarriscos?
R: O conceito Pintarriscos surgiu, como já disse na resposta anterior, da marca João Pé-de-Feijão, criada por nós e por um casal amigo há uns 10 anos atrás. Eu e Natalina Ilustrámos o quarto do nosso filho João, que estava a 15 dias de nascer (a propósito, pintar é uma forma espantosa de se atingir um estado Zen, o que é sempre quando se tem uma barriga do tamanho de júpiter), e gostámos tanto do resultado final, que decidimos que poderia ser estimulante repetir a experiência em outros espaços. A partir daí, ilustrámos alguns quartos de criança e até um showroom numa loja de mobiliário no Sobral de Monte Agraço, com várias peças de mobiliário pintadas por nós. Com a dissolução da João Pé-de-feijão, eu e a Natalina decidimos criar um conceito que fosse muito mais longe do que a mera decoração. Passámos muitas horas a conversar sobre qual o nome a dar ao nosso projecto, até que o que o nome Pintarriscos nos escolheu. Criámos também uma mitologia para este pequeno passarinho, que mede apenas 3,27 mm, e que se inspira directamente em duas outras paixões muito pessoais… a ciência e a espiritualidade, não no sentido religioso, mas num sentido muito mais amplo e universal. Foi um processo de criação tão intenso que cheguei a sonhar com uma capa da revista National Geographic a assinalar a descoberta do século… a primeira fotografia de um Pintarriscos (Pintarriscus Rapidus Lux) no interior de um acelerador de partículas. Gostaria de ter ido muito mais longe no desenvolvimento desta mitologia... falar dos seus hábitos de alimentação e dos rituais de acasalamento, achados arqueológicos e comportamentos sociais, mas por enquanto, o dia só tem 24 horas. Não consigo arranjar tempo para mais nada.
A filosofia que está na base da marca Pintarriscos é elevar a ilustração às paredes, transformando-as num livro de histórias gigante. Ilustramos ambientes, e as técnicas que utilizamos são exactamente as mesmas que usamos quando ilustramos sobre uma superfície mais pequena. Inspiramo-nos no trompe l’oeil barroco, na cenografia teatral e no graffiti, uma arte urbana de que gostamos muito. "Os gémeos", por exemplo, são para nós uma imensa fonte de inspiração. Pelo meio o Pintarriscos voa ainda pelos territórios do artesanato urbano, que é uma das paixões da Natalina.
O grande arranque desta marca foi em Abril de 2005, com a exposição / instalação comemorativa o bicentenário do nascimento do escritor dinamarquês Hans Christian Andersen, «Histórias de Princesas, de Ervilhas e Pingos de Chuva», em parceria com a livraria “Histórias com bicho”, e que nos deu um prazer indizível.
Inspirados por este passarinho já ilustrámos quartos de criança, colégios, um bar, uma biblioteca e, actualmente, estamos a ultimar o projecto de dinamização / revitalização da imagem dos corredores de acesso às Salas de Cuidados Intensivos e de Cuidados Especiais de Recém-nascidos, e das Salas de Cuidados Intensivos de Crianças até aos 18 anos e de Cuidados Especiais do Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca, também conhecido por Hospital Amadora – Sintra. A Inauguração vai ser na primeira quinzena de Dezembro.

É uma vantagem ter a mesma profissão que a sua mulher?
R: Na verdade não temos a mesma profissão. Durante o dia eu sou arquiteto na Divisão de Planeamento da Câmara Municipal do Barreiro, e a Natalina é educadora-de-infância na Escola Nova Apostólica, em Carcavelos. À noite vestimos os nossos fatos de super-herói e transformamo-nos em ilustradores. Com toda esta salada russa de actividades em comum e antagónicas, não nos podemos queixar de ter uma vida monótona e desinteressante. As paixões em comum são muitas, e os temas de conversa também. Nesse aspecto, o triângulo formado pelas nossas profissões e pela ilustração só podem ser uma imensa vantagem. Os problemas surgem quando dois trabalhos nossos coincidem num mesmo período de tempo, e consequentemente, por estarmos casados, num mesmo espaço… que é um atelier com uns míseros 12 m2 entre o nosso quarto e o quarto dos nossos filhos. Neste minúsculo espaço o ambiente familiar torna-se surreal, entre frascos de tinta com tampas trocadas, pincéis que secam e ficam duros como um bacalhau seco, ilustrações espalhadas pelos 4 cantos da casa (o facto de ilustrar em madeira é algo que me dá um prazer imenso, mas torna-se um problema quando há falta de espaço), noites mal dormidas, chávenas de café por lavar, manhãs sublinhadas com olheiras, os miúdos que também querem pintar no atelier, a Skye – a nossa cadela - a querer roer um pincel (e às vezes rói mesmo, juntamente com comandos de televisão e respectivas pilhas, fios elétricos, canetas e uma miríade de outros acessórios), os prazos a apertarem, as editoras a ligarem, as visitas, os pingos de amarelo e vermelho no chão, a loiça que tem de ser colocada na máquina, e um imenso etecétera de pequenos grandes nadas. Nesses momentos a adrenalina sobe, a tensão aumenta, e podem surgir alguns atritos enquanto casal. Felizmente, até ao momento, os trabalhos que temos tido têm estado mais ou menos desfasados, mas este é um problema com que temos de aprender a lidar.

Os seus filhos motivaram-no para entrar no universo infantil ou já era uma coisa natural em si?
R: Tudo na nossa vida conspira para que sejamos quem somos e façamos o que fazemos. Isto é uma regra para qualquer ser vivo. Como é óbvio, a vinda dos meus filhos foi uma componente absolutamente importante para a minha visão do mundo, e por consequência, para aquilo que faço enquanto ilustrador. Ter filhos é surfar um tsunami de emoções (por vezes contraditórias) e de preocupações, de momentos únicos e inesquecíveis. É impossível que um acontecimento épico desta natureza na nossa vida não tenha repercussões a todos os níveis. No entanto, como já tive a oportunidade de referir na resposta a uma pergunta anterior, o meu sonho de ser ilustrador já vem do período da minha vida em que eu media pouco menos de 1 metro de altura. Estar com eles enriqueceu o meu léxico e a minha compreensão do que é a arte, no que de mais visceral e primitivo ela representa. Ao contrário da maior parte de nós adultos, uma criança desenha aquilo que sente. Até a sua visão do mundo ser estandardizada e homogeneizada pela escola, quando uma criança pega num papel e num lápis para desenhar, o que ela realmente está a fazer é a escrever uma carta ao mundo. Não é por acaso que os pedopsicólogos utilizam o desenho para mergulhar no mundo de uma criança. Nesse aspecto a Natalina é uma privilegiada. Todos os dias ela contacta com a sinceridade da arte infantil, e isso transparece por todos os poros nas ilustrações que ela concebe. São frescas, irresistivelmente inocentes, espontâneas e mágicas. Eu, sendo arquitecto, sempre estive muito agarrado à realidade, à perspectiva, às proporções, à limpeza gráfica. Tem sido para mim uma luta constante desconstruir tudo isso, e confesso que a frescura do trabalho desenvolvido pela Natalina tem sido para mim uma das maiores fontes de inspiração.
Que inveja!

Organiza os seus dias ou trabalha por instinto?
R: Infelizmente não. Sou a pessoa mais desorganizada com quem me cruzei na minha vida. E impaciente também. Dois defeitos que detesto em mim, até porque é uma má influência para os meus filhos. Com que moral lhes posso exigir que arrumem o quarto e a mesa de trabalho deles, quando o nosso atelier parece ter sido alvo de um ataque nuclear? Há contudo uma coisa em que sou absolutamente sistemático. Quando tenho de criar uma qualquer ilustração encho os meus blocos de desenho até construir dentro da minha mente a imagem que pretendo, com um detalhe minucioso. Quando começo a executá-la, sei exactamente qual a imagem que pretendo no final. A forma como vou lá chegar é puramente intuitiva, mas a imagem que vive na minha cabeça é aquela que persigo até ao mais ínfimo detalhe. E quando esta alquimia de transformar uma tempestade elétrica que só vive na minha cabeça em algo palpável, substancial e apreensível por terceiros não resulta, pode ser uma fonte de grande angústia.

Tem projetos para um futuro próximo?
R: Sim, tenho muitos. Sempre vi a ilustração como uma carreira, mas os projectos foram surgindo de uma forma fluida e orgânica. Nunca fiz outsourcing junto das editoras, nunca dei passos previamente programados, em grande parte porque tenho uma outra profissão paralela que me tem garantido um ordenado mensal e fixo. Mas a partir de certo momento, comecei a ter necessidade de ver o meu percurso na ilustração guiado por um fio condutor, uma estrutura que se vai montando a pouco e pouco, cujo o todo deverá ser superior à soma das suas partes. Uma vez mais o universo provou ter um mecanismo de um relógio, pois foi durante essa tomada de consciência que me cruzei com a empresa Booktailors – Consultores Editoriais, mais precisamente na figura de Paulo Ferreira, com a qual estabeleci um contrato de agenciamento. Este facto está ainda a ser um enorme ponto de viragem na minha carreira.
Quanto aos projectos, tenho de facto muitos. Mas só vou revelar o maior deles… um dia gostaria muito de poder viver unicamente do universo da ilustração e tudo o que o rodeia. Isso seria algo que me traria uma enorme qualidade de vida, não só a nível pessoal como familiar. E acima de tudo, seria fonte de uma enorme felicidade. Mas os tempos que se vivem são incertos e assustadores, muito especialmente para alguém como eu que nunca trabalhou a solo. Trabalhar por conta própria exige uma mudança de paradigma, uma transformação interna que exige tempo de maturação, o que não se coaduna com a velocidade com que as transformações sociais e económicas se vão sucedendo, que é atualmente, à escala de um dia. Entrámos em modo de sobrevivência, e nestas alturas as decisões têm de ser tomadas de uma forma muito, muito cuidadosa.

Para além de desenhar, o que mais gosta de fazer?
R: São muitas as coisas que me fazem estremecer e tornam a minha vida numa imensa fonte de prazer:
É bom estar com a minha família; Adoro ouvir música (e tentar aprender música, apesar de ter falhado até ao momento); Amo os livros e a leitura…são óptimos para voar; Adoro fazer surf (ou melhor, tentar fazer surf, pois ainda estou a aprender) com amigos, muito especialmente com o Marc Parchow, o meu companheiro de ondas. No final, não há nada melhor do que ficar com o sal na pele até à noite; Viajar é a melhor coisa do mundo; Cristalizar momentos e estados de espírito em fotografia; Aprender algo todos os dias, sempre; Correr que nem um desalmado com a Skye, no paredão de Oeiras... 10 km por dia, 3 vezes por semana; Observar a lua e as estrelas com binóculos; Procrastinar também sabe bem, apesar de quase sempre me arrepender mais tarde; Beber um bom vinho e comer um bom queijo ao som de Miles Davis ou de Tom Jobim (música de chuva, de acordo com o meu filho João).

Sugira alguém português que, para si, seja inspirador.
R: Gosto do trabalho de tantos ilustradores portugueses que seria injusto enumerar alguns deles e esquecer-me de outros igualmente importantes para mim. A maior parte deles segue uma abordagem totalmente antagónica à minha, mas é exactamente isso que procuro no trabalho daqueles que admiro... Uma descoberta de formas de ver a ilustração completamente diferentes da minha. Só assim se pode crescer... Saindo da nossa zona de conforto, arriscar, inovar nem que seja um milímetro, experimentar muitas vezes. Como disse Samuel Beckett, "Tentar novamente. Falhar novamente. Falhar melhor.". Se não for assim, de nada vale o esforço despendido.
Há no entanto dois ilustradores portugueses que gostaria imenso de referir, e cujo trabalho admiro muito (e peço desde já desculpa por subverter o máximo previsto pela pergunta).  Sem qualquer ordem de preferência, falo do Bernardo Carvalho e do Afonso Cruz.
O Bernardo Carvalho porque alia na perfeição um sentido de economia de desenho (que o leva a uma abordagem abstrata, minimal e quase Naif) com um profundo sentido cinemático de Espaço e de Lugar, sem descurar nunca o experimentar de novos caminhos. Bons exemplos disto são os últimos livros que ilustrou: o mudo e amplo "Praia Mar" e o ensolarado e aconchegante "Hugo e Eu e as Mangas de Marte", com texto de Richard Zimler, um outro autor cujo trabalho muito admiro. São perfeitos porque de repente estamos naqueles lugares, sentimos o vento, os sons e os cheiros. E não estou a falar metaforicamente.
Por outro lugar, o Afonso Cruz é para mim um dos grandes ilustradores portugueses. E como se isso não bastasse, escreve espantosamente bem. Estou neste momento a ler "O pintor debaixo do lava-loiça" e posso desde já dizer que estou deleitado, como aliás fiquei n' "Os livros que devoraram o meu pai" e n' "A contradição humana". E como se isso não bastasse, é um multi-instrumentalista com créditos firmados na banda "The Soaked Lamb". E faz animação. E produz cerveja (até os rótulos são da autoria dele), a qual infelizmente nunca provei. E já viajou por mais de meia centena de países. Para mim, ele personifica o espírito renascentista que todos temos dentro de nós, mas que só alguns conseguem conjurar. Quando for grande quero ser assim.



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